CarneMarcada
Sempre que ficava nervoso começava a apertar cada parte do rosto até ficar vermelho.
Hoje estava de rosto e pescoço cor “carne crua”. O shopping estava cheio, mesmo assim se sentia solitário. Faltavam quarenta e sete minutos para o filme começar. Sentado tomando um café notava as pessoas rirem daquele seu rosto vermelho. Levava a mão até a cara e se apertava um pouco mais. Pensava, constantemente, em formas de deixar o rosto daquelas pessoas vermelho. O celular vibrou avisando que faltava pouco tempo para o filme, quiçá a sala de cinema fosse mais confortável. O vermelho não e tão forte no escuro.
Acomodou-se na poltrona, ninguém dos lados, ainda bem! Respirou. Viu no chão o que parecia ser uma moeda, abaixou-se, e quando voltou triunfal, o rosto que antes era vermelho, tornou-se transparente. Não há formas de descrever o que o menino sentiu ao ver aquela pessoa. Duas poltronas à frente – agora – estava o produto de noites de imaginação, estava cada uma das fotos guardadas materializada, estava, em fim, o objeto de desejo. O filme começou, mas longe, estava da tela, o pensamento.
Longas foram as duas horas de filme – não visto –, cada segundo foi dedicado a vigiar todo movimento daquele corpo divino. As portas de saída foram lentamente abertas, ele sabia que seu momento de brasa estava por acabar. Saiu, correu a casa, e frente ao espelho viu as marcas da relação que acabara de “ter”, sua face tinha deixado a cor escarlate e vestido um tom roxo.
Puedo ponerme cursi y decir que tus labios
me saben igual que los labios que beso en mis sueños,
puedo ponerme triste y decir que me basta
con ser tu enemigo, tu todo, tu esclavo, tu fiebre tu dueño
y si quieres también puedo ser tu estación y tu tren,
tu mal y tu bien, tu pan y tu vino, tu pecado tu Dios tu asesino,
o tal vez esa sombra que se tumba a tu lado en la alfombra
a la orilla de la chimenea a esperar que suba la marea.
Puedo ponerme humilde y decir que no soy el mejor
que me falta algo para atarte a mi cama,
puedo ponerme digno y decir toma mi dirección
cuando te hartes de amores baratos, de un rato me llamas
y si quieres también puedo ser tu trapecio y tu red,
tu adiós y tu ven, tu manta y tu frío, tu resaca, tu lunes, tu hastío,
o tal vez esa sombra que se tumba a tu lado en la alfombra
a la orilla de la chimenea a esperar que suba la marea.
O tal vez ese viento que te arranca del aburrimiento
y te deja abrazada a una duda, en mitad de la calle y desnuda.
O tal vez esa sombra que se tumba a tu lado en la alfombra
a la orilla de la chimenea a esperar…
La Orilla de la Chimenea - Joaquín Sabina
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